terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Ainda as eleições… (as minhas notas)


Porque ontem não houve tempo e porque me apraz registar, aqui vos deixo os meus apontamentos sobre este último sufrágio.

A primeira nota vai para a campanha eleitoral que foi realmente do mais pobrezinho que pode haver. Uma desgraça para a classe. Um lavar de roupa suja sem ter fim. Uma autêntica peixeirada com a má-língua a desperdiçar o nobre espaço da discussão política. O discurso foi baixo e reles, completamente desprovido de uma visão estratégica para o futuro, sem haver um único candidato que fosse capaz de apresentar medidas concretas para conseguir resgatar o país desta situação calamitosa que a todos nos sufoca. Muito folclore, muita arruada, muita beijoca e empurrão, muito autocolante e jantarada mas… e ideias?

A reacção do eleitorado a este bizarro cortejo foi a óbvia: 53,3% de abstenção, que é como quem diz “toma lá que já almoçaste! Alimpa-te!”, como se diz cá no Alentejo.

Cavaco ganhou e eu estou convicto que foi a melhor solução para Portugal.

Calma! Sentem-se lá! Eu explico…

Quem se preocupa com a continuidade do nosso país enquanto Estado soberano (logo, autónomo) sabe que a estabilidade é fundamental, sobretudo nestes tempos conturbados em que mercados e FMI espreitam ao virar da esquina, desertos de nos “deitar o dente”. É por isso que a figura do economista (e Professor de Finanças) conservador é-nos tão mais útil que a de um lírico poeta socialista, como vos dizia ontem. Por muito que nos custe, é assim que o mundo nos vê. As regras do jogo estão definidas há muito.

Agora… também sei perfeitamente que Cavaco não é o impoluto que diz ser. Eu sei…

Sei que ele sabia “de ginjeira” que os ganhos extraordinários obtidos através da venda das famigeradas acções da SLN (as tais que tiveram uma aquisição “apadrinhada” pelo seu amigo Oliveira e Costa) foram desonestos porque as regras do jogo foram viciadas a seu favor.

Como sei que ele sabia que o Dias Loureiro, um dos seus “testas de ferro” favorito (que fez questão de levar para o Conselho de Estado) estava atolado até às orelhas nesse pântano imundo do BPN que roubou clientes e agora nos chula a nós todos até mais não.

Como sei que provavelmente houve ali um favorzito relacionado com a licença de construção da sua vivenda de férias ao qual não disse que não, porque lhe convinha que assim fosse.

Como sei que aquela de pressionar o pessoal dizendo que a segunda volta representaria um custo insuportável para o Estado também é do mais mauzinho que pode haver, mas enfim…

Eu sei que Cavaco não é a virgem santíssima que diz ser porque não há pessoas perfeitas e não se pode nascer duas vezes. Cristo que foi Cristo, que era filho de quem era e tinha a maior e melhor cunha deste mundo, com trinta e três anos já lá estava cravado no barrote com uma cavilha de meio metro em cada mão. Falemos claro.

Mas também sei que em política e sobretudo na política portuguesa, a questão reside não em escolher o melhor mas em optar pelo menos mau e é por aí que a coisa vai.

Ao contrário do que muitos defendem hoje em dia, eu não acho que figura do Presidente da República seja meramente decorativa. O seu poder de veto não é despiciendo; tem ao seu dispor a tal “bomba atómica” da possibilidade de dissolução parlamentar mas mais do que isso, é o comandante supremo das forças armadas, o mais alto magistrado do país e a principal figura de Estado, o que não é pouco. Ele, mais do que ninguém, representa-nos a todos nós. E a verdade, por muito que doa a muitos, é que Cavaco simboliza, apesar de tudo, quanto mais não seja para o mundo, a continuidade e a estabilidade que necessitamos.

Faço votos que este segundo mandato seja mais crítico, mais interventivo, mais acutilante. Eu sei que Cavaco se preocupa sobretudo com Cavaco mas não seria mau se colocasse, quanto mais não fosse a sua experiência, ao serviço do país.

Eu gostava de perguntar ao Manuel Alegre, de preferência sem que ele me mordesse, o que é que fez de concreto na sua vida inteira “à pala” da política, para além de ralhar com tudo e com todos. Ao longo destes anos, habituei-me a vê-lo sempre zangado. Zangado com a oposição, zangado com que governava, zangado até com os seus colegas de bancada (sentado a um canto do hemiciclo), zangado consigo próprio… Este homem, lá porque foi um militante anti-fascista que comia não sei quantos Pides ao pequeno-almoço, meteu na cabeça que tem direito a tudo aquilo que a sua vista alcança. Não sei se repararam na sobranceira, no distanciamento das pessoas, no seu porte altivo quando contactava com as gentes que o saudavam. O Cavaco, ao menos, não tem medo de se agarrar às velhas, de dançar o malhão, de amolgar o tejadilho dos carros de campanha, de dar o corpo ao manifesto, catano!

Alegre foi o grande derrotado destas eleições. O resultado notável que conseguiu em 2006, muito por graça do seu arrojo de correr por fora do partido, de fazer uma candidatura da cidadania, aberta a todos os espectros políticos, não se repetiu. Desta vez levou consigo um PS ferido na asa e um Bloco de Esquerda que de nada lhe valeram, antes pelo contrário. Esta colagem da família política só lhe retirou brio e audácia, aburguesou-o, enfraqueceu-o, banalizou-o. Pagou a factura cara, porque acabou por ficar só. As declarações a quente de José Sócrates dizem muito do homem e do político que é, mais preocupado em “sacudir a água do capote” do que “dar o corpo às balas”. “O Alegre não era o candidato do PS. Era apoiado pelo partido mas não era o candidato do partido”, que é o mesmo que dizer “queimou-se mas foi ele que nós não temos nada a ver com isso. Não queremos cá misturas…”. Um amor, este rapaz.

Para além de tudo o que foi dito e se possa ainda dizer, há que ter em linha de conta que o ciclo político do PS na governação está a dar as últimas. Até por aí, votar em Alegre seria um contra senso, isto, claro está, partindo do princípio que a teoria da alternância política se confirmará mais uma vez. Talvez seja desta que o grande sonho do Sá Carneiro (o bingo PM/PM) se concretiza. Já vai sendo tempo… a ver o que dá.

Não havendo um Manuel Alegre para fazer de Manuel Alegre, coube a Fernando Nobre a interpretação do papel de “homem-que-se-ergue-da-multidão-para-dar-voz-aos-descontentes-com-a-política-que-estão-desertos-que-isto-mude-de-vez”. Não se saiu mal em termos de votação (14,1%) embora o tivesse achado um bocado caquético e senil, sobretudo na fase final da campanha quando foi assolado por uns laivos de magnificência que lhe toldaram a razão. Aquela de perguntar ao outro se fazia campanha por ele na segunda volta não é de quem está bom da cabeça mas pelo que parece, o Luís Represas e mais uns milhares de portugueses gostaram. O homem tem prestígio, tem tarimba, desenvolveu um trabalho extraordinário em prol dos mais necessitados à frente da AMI mas não deu para tudo. Não foi a sorte grande, foi a terminação e assim ficou ele, assobiando pela rua fora com o meio milhão de cruzes que lhe atribuem. Nada mau. Agora é só meter a render.

Com Francisco Lopes entramos na liga “Portugal dos Pequeninos” que também é engraçada porque é muito mais renhida. Por esta altura, o candidato comunista já deve estar internado numa siderurgia do Seixal onde vai ser desmantelado peça por peça. Peças essas que por sua vez serão reaproveitadas para construir novo autómato daqui a 5 anos. Eu já aqui disse isto antes: acho os comunistas portugueses o máximo! São tão ferrenhos! O comunismo praticamente acabou em quase todo o mundo mas eles são tão tortinhos que continuam a acreditar. Enfim… cada um é como cada qual. Foi o registo do costume, na cassete do costume, com a votação do costume: cada vez mais baixa. Por cada compadre que morre não há um puto com t-shirt do Che que o substitua e a extinção será assim inevitável.

José Manuel Coelho foi um dos heróis indiscutíveis da noite e o único da campanha. Digo-vos com toda a franqueza, se não tivesse o meu voto cativo pelo sentido de sobrevivência do Estado de que vos falei, era no Coelho que votava. E eu cá sei, mas isto não é contraditório, de todo! Se fosse para rebentar… ia de vez!

Eu já conhecia a figura dos episódios que protagonizou na Assembleia Regional da Madeira, como o da bandeira nazi e o do despertador atado ao pescoço com um cordel por causa dos tempos de oratória. E quem lê este blogue e me conhece minimamente entende com facilidade que eu me derreto todo com estas merdas. É precisamente o meu nível de discurso. Adoro e se as circunstâncias fossem outras até era gajo para me oferecer para mandatário. O homem merecia quanto mais não fosse pela coragem de mandar tudo às urtigas e se atirar a eles que nem um leão. A sua campanha teve momentos absolutamente hilariantes/geniais de mais pura comédia à Monty Python como a célebre cena da carrinha funerária, a da oferta de submarino em miniatura ao Portas ou da oferta de batatas em Gondomar num saco azul a lembrar Felgueiras. O Coelho não é muito certo e disso ninguém tem dúvidas mas é tudo menos parvo. Ele sabe o que diz e quando aponta o dedo à corrupção que nos mina sabe que há muitos milhares que concordam. Sabiam que o homem tem grande parte do vencimento de deputado penhorado para pagar indemnizações e custas de processos que moveram contra ele na Madeira? Ser contra o regime, ainda por cima numa ilha, não deve ser fácil… Mas ainda assim, o Coelho luta, soma e segue. Bater o Cavaco em 3 das 11 freguesias locais e sobretudo, ter conseguido uma expressiva votação nacional são triunfos que ninguém lhe pode tirar. Passou de lunático insular a voz da revolta que granjeia simpatia de norte a sul do “con-t-nent” e isso não é coisa pouca.

Com tudo isto, sobrou apenas 1,57% do bolo dos votos para um senhor que é sósia do Imperador Ming do Flash Gordon e aproveitou a candidatura para passear e comer cachupa. Fez bem. Se fosse eu… fazia o mesmo.

E assim, meus amigos, digo de meu entender como a coisa se passou. Está aberta a sessão para o contraditório. Ou não…

6 comentários:

Helena Barreta disse...

Pela minha parte, não vai haver contestação à sua peça.

Um abraço

Jota disse...

Brilhante análise, eu não descreveria melhor cada um dos candidatos.
Ainda assim, continuo a achar que esta campanha eleitoral deveria ser imortalizada pela Margarida Rebelo Pinto num dos seus próximos livros... matéria interessante (daquela a que ela já nos habituou) não lhe faltará.
Também continuo a achar que (e lá estou eu outra vez) durante o discurso com o qual o nosso Presidente nos brindou aquando da sua vitória, a Primeira Dama deveria ter servido os restos do bolo rei que sobrou do Natal ao nosso Presidente... talvez lhe adoçasse um pouco mais o espírito e o fizesse cuspir mais bolo e menos azedume (esta do bolo rei lembra-me qualquer coisa).
Cavaco fechou de facto com chave de ouro uma "brilhante" campanha eleitoral.
Em tão solene momento, o nosso representante máximo antecipou-se ao Carnaval. Mascarou-se de Rainha de Copas, mandou alinhar os candidatos "derrotados" e gritou "OFF WITH THEIR HEADS!!!".
Seria bem mais proveitoso se o tivesse feito com os membros do governo e que depois ainda fizesse uma incursão pelo parlamento.
Já agora.... Defensor quem???

Jota disse...

Errata:
Em vez de "Cavaco fechou de facto com chave de ouro uma brilhante campanha eleitoral", leia-se antes: "Cavaco abriu com chave de ouro aquele que vislumbro ser um brilhante 2º mandato"... porque a campanha eleitoral, essa já era"

Garraio disse...

Querido Pedrocas:

Ainda ontem éramos gerrilheiros do hermínio Menor, e hoje achamos prudente votar no palhaço do Cavaco?

Ora, Fod*-se, que isto é demasiado unto de camaleão para um homem só.

Pedro Sobreiro (Tio Sabi) disse...

Meu caro Garraio,

Tratam-se de registos completamente distintos. Não há aqui nada de camaleónico. Apenas diferentes formas de abordar a mesma realidade. Formas essas que estão, de resto, bem patentes na minha leitura dos acontecimentos. Ora atenta:

“José Manuel Coelho foi um dos heróis indiscutíveis da noite e o único da campanha. Digo-vos com toda a franqueza, se não tivesse o meu voto cativo pelo sentido de sobrevivência do Estado de que vos falei, era no Coelho que votava. E eu cá sei, mas isto não é contraditório, de todo! Se fosse para rebentar… ia de vez!”

Não há aqui é meio-termo, falinhas mansas, paninhos quentes, festinhas na cabeça, palmadinhas nas costas ou até um “virar de casacas” como a tua alusão ao camaleão parece sugerir.

Comigo é assim: se é para viabilizar, viabiliza-se. Se não dá para viabilizar, pois, mande-se tudo pró caralho e passemos já à luta armada que caminho que há que andar, não se deve arrepiar.

O madeirense Coelho que tu tão acerrimamente defendes tem os seus méritos. Não lhos tiro. Mas será que acreditas verdadeiramente que seria viável viver num país onde esse homem fosse Presidente da República? Quantos anos mais duraria esse Estado? Será que a coisa está tão má que devemos já deitar a perder toda a história que nos antecede e entrar numa investida taliban ao melhor jeito “tudo ou nada”?

E depois, os nosso filhos (sempre eles…) vivem onde? E como?

Se isto já está mau…

Um abraço

Pedro Sobreiro

Garraio disse...

Má Friend:

Os camaleões não dão palmadinhas nas costas a ninguém, simplesmente mudam de cor com facilidade, num método defensivo, mas a todas as luzes louvável e eficaz.

Há cinco anos atrás, eu tb votei no Cavaco. Mas o Cavaco enganou-me, assim como a esmagadora maioria da classe política (eles nem merecem esta palavra...)

O Cavaco é corrupto porque aceitou favores para comprar acções em condições vantajosas...

O Cavaco trocou prédios com valores distintos e não pagou o diferencial em impostos...

No dicionário do Cavaco a palavra ética não existe,porque ao passo que os sem abrigo continuam a aumentar na calçada da Ajuda, ele impávido, sereno e cínico, continua a receber como professor reformado, como deputado reformado, como Presidente da República...

Este sistema político está completamente podre, amigo. E não vai, pela certa, constituir nada de positivo para o futuro, nem para o nosso, nem para o das nossas meninas.

E oxalá eu estivesse enganado,e por esta vez, fosse forçado a reconhecer que tinhas razão. Mas vais ver como não...


Foi por essas razões que, em cinco anos eu passei de votar no Cavaco a votar no Coelho.

Não é que eu goste especialmente no Coelho. Ele é um oportunista que facilmente se vai vender por um lugar, provavelmente, no partido socialista. Estaremos cá para ver...

O que eu achei de importante no rabbit foi ele andar pela rua a tratar as coisas por tu, a dizer as verdades sem pelos na língua e a alertar as pessoas para o facto de que urge acabar com todos estes mamões de vez.

JÁ.